Em uma entrevista do jornal O Dia Online, Rocco Pitanga elogiou a novela “Os Mutantes”, principalmente pela novela conter um grande número de atores negros, e não abordar o tema da escravidão.Devido à eleição de Obama, o jornal resolveu reunir artista negros, como Rocco Pitanga, o Carvalho de “Os Mutantes”, Toni Garrido, o Gudi de “Caminhos do Coração”, e outros artista para falar da nova época pós-Obama.
No ar na novela da Record ‘Os Mutantes – Caminhos do Coração’, Rocco Pitanga acredita que o negro vem ganhando espaço na sociedade e algumas mudanças já podem ser vistas, e aproveita para fazer um elogio a trama.
“Faço parte de uma novela em que grande parte do elenco é de negros. Em 28 anos de vida, essa é uma das únicas novelas que tem negros sem precisar falar de escravidão, sem entrar na discussão racista. Simplesmente, coloca o negro numa posição bacana”, destaca o ator, chamando atenção para um exemplo simples de preconceito que vê acontecer em sua profissão.
Confira na íntegra a matéria do jornal O Dia.
Artistas negros falam de orgulho e preconceito pós-Obama
Rio - No momento em que Barack Obama entra para a História como o primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos, uma onda de entusiasmo toma conta do mundo. Exemplos de homens bem-sucedidos e representantes da beleza negra, assim como o democrata, o cantor Toni Garrido, o ex-modelo Walter Rosa e os atores André Ramiro e Rocco Pitanga aproveitam ainda a proximidade do Dia da Consciência Negra, na próxima quinta-feira, para bater um papo franco sobre novas perspectivas, preconceito, política, beleza e histórias de vida.“Obama vem carregado de esperança. Que bom que até o povo americano está a fim de mudança”, comemora André Ramiro, mais conhecido como o policial Matias do filme ‘Tropa de Elite’. “Vejo os Estados Unidos como um país muito preconceituoso, e a partir do momento em que eles dão a chance para um negro liderar, a gente começa a ver que não é só a cor da pele que dita. As pessoas estão começando a enxergar algo maior”, comemora Rocco Pitanga.
Menos eufórico, Toni Garrido diz que ficou feliz com a conquista de Obama, mas não entende ‘essa loucura’ de brasileiros que chegaram a colar adesivos da campanha nos carros, mesmo sem votar. “Acho curioso e perigoso o barco que as pessoas estão entrando. Eu não entrei. Para mim, a posse do Joaquim Barbosa (como ministro do Supremo Tribunal Federal, em 2003) foi muito mais importante. Chorei ao ver o primeiro negro a integrar o Supremo”, conta, emocionado.
Aos 41 anos, Toni se considera ‘escaldado’ na política a ponto de deixar a questão racial de lado e chamar a atenção para o fato de Obama ser um presidente americano. “Será que ele vai ser o primeiro a não ser autoritário? A não invadir o Paquistão?”, pondera. “Gostaria de vê-lo dizer que no governo dele o Al Gore (ex-vice-presidente e ativista ecológico) vai ser o responsável pela política ambiental; acabar a palhaçada do embargo a Cuba, já que o Fidel não governa mais; não se meter mais com os problemas de El Salvador”, enumera.
De volta à sua realidade, o cantor nascido em Realengo e com infância pobre, deu uma guinada na vida ao alcançar o sucesso como vocalista da banda Cidade Negra – da qual se desligou este ano. “Não tenho avôs nem avós com histórias de superação, nem ninguém na família fez faculdade. Mas meus fi lhos vão fazer. No prédio de classe média em que moro, na Lagoa, não tem nenhuma família negra. Esse é o retrato da sociedade em que vivemos”, afirma Toni, acrescentando que ainda falta ao negro se tornar referência cultural.
“Na estética, esse passo já foi dado. Hoje em dia o cabelo crespo é lindo; no verão, todos querem se bronzear para ficar preto; o negro é lindo,gostosão e tem sensualidade. Agora, vamos disputar para entrar na faculdade”.
Às vésperas do Dia de Zumbi, Walter Rosa, 42 anos, alerta: “É o momento de as pessoas olharem seriamente para elas mesmas e mudar o mal que existe nelas, ou melhor, em nós”, opina ele. De família pobre, o próprio Walter Rosa reconhece ter sido preconceituoso antes de se casar com a socialite Lilibeth Monteiro de Carvalho, integrante de uma das famílias mais tradicionais do Rio. Os dois hoje têm uma filha, Nina, de 3 anos.
“Preconceito é pré-avaliar sem conhecer. Eu tinha um preconceito contra as pessoas ricas. Foi bom para eu ver que, independentemente de classe social, existem pessoas boas e más. Pobres com o espírito nobre e ricos com espírito pobre”, analisa ele, que quando anda nas ruas ao lado da família, principalmente nos Estados Unidos, atrai olhares curiosos. “As pessoas olham e fazem a matemática de uma branca com um negro. Aí observam nossa filha para ver no que deu”, diz, antes de descrever a menina.
“Ela é bem clarinha, mas com o cabelo encaracolado. Faço questão de falar para ela que sou preto. Mas não tento criar limites de estereótipos. Ela é apaixonada pelo Zac Efron, de ‘High School Musical’. Ela acha os olhos azuis dele lindos e eu acho bom que ela goste do que ela gosta mesmo. Não vou dizer que tem que gostar de preto. Sou a favor da mistura, não posso dizer coisa diferente”, ri o ex-modelo, que teve namoradas negras por muitos anos. “Não escolho parceira pela cor, e sim pelo ‘feeling’”.
No ar na novela da Record ‘Os Mutantes – Caminhos do Coração’, o ator Rocco Pitanga acredita que o negro vem ganhando espaço na sociedade e algumas mudanças já podem ser vistas. “Faço parte de uma novela em que grande parte do elenco é de negros. Em 28 anos de vida, essa é uma das únicas novelas que tem negros sem precisar falar de escravidão, sem entrar na discussão racista. Simplesmente, coloca o negro numa posição bacana”, destaca o ator, chamando atenção para um exemplo simples de preconceito que vê acontecer em sua profissão.
“Quando vou fazer teste de seleção para uma novela, geralmente se sabe quais são os personagens negros, porque eles vêm sublinhados. Quando existe um personagem negro, isso é especificado , quando não existe nada, é branco”, compara.
Nascido e criado na Vila Kennedy, na Zona Oeste, André Ramiro, de 27 anos, trabalhou como office boy e bilheteiro de cinema. Hoje, ator de sucesso e reconhecido nas ruas, ele percebe a mudança até na forma de ser tratado. “Quando você ganha status, as pessoas passam a não enxergar mais a sua cor. Principalmente quando você é atendido em algum lugar. Se as pessoas me reconhecem o tratamento é um, se não, é outro,”, compara Ramiro, que trocou a comunidade por Copacabana. “Não moro lá, estou ‘hospedado’ na Zona Sul. Foi com o pessoal da Vila Kennedy que aprendi meus valores. Na realidade, acredito que qualquer pessoa bem intencionada é bem recebida em qualquer lugar”, diz.
Sem deixar a simplicidade de lado, Ramiro continua a andar de ônibus ou metrô, gerando desconfiança de quem o vê. “Ficam me olhando para ver se sou eu mesmo”, diverte-se o ator, que vai estrear na TV como o trafi cante Tião Meleca do seriado ‘A Lei e o Crime’, da Record, e produz seu primeiro disco, de hip hop, baseado em suas histórias de vida. “É para se emocionar, se divertir e se conscientizar”, define, no clima do momento.
Um vencedor
A trajetória vitoriosa de Barack Obama (foto) – filho de pai negro queniano
e mãe branca americana, criado em área humilde de Chicago, que estudou em Harvard e foi senador, até chegar à presidência – é associada à do presidente Lula. “É nosso Obama. Lula é negro. De pele, de situação. Ele é negro porque sabe a dor do negro”, diz Toni. “É uma pessoa que veio do povo”, reforça Rocco. Como presidente negro do Brasil, Toni gostaria de ver o ministro Joaquim Barbosa, com Cacá Diegues de ministro da Cultura e Carlinhos Brown, da Motivação Social.
O eleito
Apesar de interpretar um político corrupto na novela ‘A Favorita’, o ator Milton Gonçalves foi escolhido por André Ramiro e Walter Rosa como um possível presidente negro ideal para o Brasil. “Ele é honesto, íntegro, tem senso político imparcial e saberia defender quem necessita”, diz Ramiro. Milton agradece, mas garante que não está disposto a voltar à política – em 1994, ele se candidatou a governador do Rio de Janeiro. “Governar é ter visão abrangente para a saúde, educação, segurança. Hoje, eu prefiro seguir alguém em quem eu possa confiar”.
DIA ONLINE
RAFAELA SANTOS



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